Texto de Ronaldo Leão, professor da UNEAL - Universidade Estadual de Alagoas:
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"A política deveria ser uma atividade que agregasse pensamentos e ideias no sentido de buscar caminhos mais justos e mais humanos para a obtenção dos meios de promover o bem-estar e a felicidade das pessoas. De todas as pessoas, eu acrescento. Filosoficamente falando, seria a luta na defesa do ideal de plenitude dos seres humanos, afinal, como disse Caetano, “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Entretanto, muitos não enxergam na política essa função; pelo contrário, veem nela um meio de enriquecimento ou conquista do poder. Um poder que usará não para promover o bem comum, mas o bem dos seus familiares e amigos. O povo, como dizia o deputado Justo Veríssimo, personagem do genial Chico Anísio, “que se exploda”. Não deveria ser assim, mas na realidade acontecem coisas no campo da política que não dá para desconsiderar. Vejo com frequência pessoas o tempo todo falando de algum amigo ou parente, ou até mesmo de alguém que apenas conhece, cujas opiniões sobre política acabaram por promover um distanciamento entre eles. Aconteceu comigo, tenho certeza que aconteceu e acontece com muitas outras pessoas.
A questão vai além da discussão ideológica ou partidária: trata-se de visões de mundo e de sociedade, defendidas por cada lado, e que são em muitos aspectos antagônicas. Se a minha concepção de mundo é de um lugar onde todos tenham mais ou menos (pra não radicalizar!) oportunidades iguais para a realização dos seus sonhos (materiais e espirituais), como posso concordar com alguém que acha que só os escolhidos, os ricos, os afortunados, os que têm “mérito” devem gozar desse direito? Como posso, por exemplo, concordar com alguém que acha que o estado não deve de forma nenhuma interferir nos rumos econômicos de um país, quando a realidade mostra que quando isso acontece, apenas os grandes sobrevivem por causa do nosso capitalismo predatório? Quando os governos deixam de usar os instrumentos legais do estado e não interferem em nada, como é o desejo da direita e dos ditos “liberais”, o capitalismo selvagem promove uma violenta segregação social através do distanciamento cada vez maior das classes sociais não deixando espaço para os menos afortunados lograrem sucesso nos seus empreendimentos. O dinheiro só fica nas mãos de quem já tem dinheiro.
Outro exemplo: se no auge da ditadura militar brasileira eu fosse um jovem politizado e soubesse do que acontecia nos bastidores dos quartéis; soubesse das torturas, dos assassinatos, dos sequestros de pessoas; como poderia me relacionar amigavelmente com defensores dos generais e apoiadores do regime? Como poderia aceitar os argumentos de que os opositores do regime precisavam serem mortos em nome da segurança da pátria? Se eu tivesse vivido na Alemanha, e tivesse a concepção de mundo e de governo que tenho hoje, como poderia ser amigo de um defensor ferrenho de Hitler e do regime nazista? “Ah, mas assim você está sendo intolerante”, diriam alguns; nesse caso, eu fico com as ideias do filósofo Karl Popper que afirmou que “a tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. ” Como posso aceitar os argumentos de quem não aceita as regras da democracia e acha que as instituições devem ser destruídas e acha normal uma ditadura? Tem certas coisas e defeitos nos seres humanos com os quais não temos como desculpar ou aceitar. Apoiar o fascismo, as ditaduras, o autoritarismo é uma delas. Quero distancia desse tipo de gente, porque com essas pessoas é difícil dialogar. Sem falar que elas quase nunca aceitam nossos argumentos. Melhor não perder tempo, digo sempre."
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