Por que o cérebro tenta prever o pior? Entenda os sinais de alerta

Publicado em 15/07/2026, às 21h24
Magnific
Magnific

Por O Tempo

A necessidade de controle nas relações, muitas vezes manifestada por ciúmes e obsessão, tem raízes evolutivas e pode levar a comportamentos prejudiciais, como a ruminação excessiva e a microgestão de relacionamentos.

Esses comportamentos são exacerbados pela tecnologia, que cria um ciclo de estímulos constantes, fazendo com que as pessoas sintam que precisam controlar tudo ao seu redor para evitar surpresas negativas.

A pressão social para não desistir e a crença de que o sucesso é alcançável para todos contribuem para essa obsessão, tornando a busca por controle uma forma de opressão que afeta a saúde mental e o bem-estar individual.

Resumo gerado por IA

A cena é mais comum do que a gente imagina: o namorado ou a namorada pede para o parceiro (ou a parceira) fazer uma chamada de vídeo tarde da noite, quando ele/ela está em viagem. A intenção por trás desse pedido não tem, muitas vezes, relação com saudade, mas sim com ciúme e obsessão por controle, para garantir que não há mais ninguém no quarto.

Essa necessidade ferrenha de querer controlar cada detalhe do que o outro está fazendo tem explicação em nossos ancestrais. “Ela tem raízes evolutivas, neurológicas e cognitivas. Evolutivamente falando, o cérebro humano desenvolveu um sistema de detecção de ameaças para garantir a nossa sobrevivência”, explica o psicólogo Thiago de Paula.

“Isso que a gente chama hoje de necessidade de controle é, na origem, um mecanismo adaptativo de antecipação de um possível perigo. O problema é que esse sistema opera com um viés de falso positivo, ou seja, é melhor errar achando que há perigo e estar preparado para isso, do que errar achando que não há e ser surpreendido”, destaca.

“A gente evita ao máximo ser surpreendido, por isso tenta antecipar e controlar. Um exemplo clássico disso é a ‘catastrofização’, quando a mente antecipa sempre o pior cenário possível, enquanto a gente tenta controlar todas as variáveis. É como se o cérebro dissesse: ‘Se eu controlar tudo, nada de ruim vai acontecer’”, pondera o psicólogo.

Um dos sinais claros de que a pessoa está desperdiçando energia com algo que está fora do controle é o que Thiago de Paula chama de “ruminação excessiva”. “É quando a pessoa fica repetindo mentalmente situações do passado como: ‘Se eu tivesse feito diferente, se eu tivesse feito X ao invés de Y, se eu não tivesse aceitado, seria diferente’”.

Outro sinal cognitivo é a preocupação antecipatória, quando se passa a ensaiar mentalmente cenários futuros e improváveis. “Com isso, muitas vezes a pessoa nem age, porque ela fica dizendo a si mesma que, se fizer B, algo vai acontecer”, diz. Pior mesmo é quando ficamos presumindo o que os outros estão pensando, sem nenhuma evidência.

Os exemplos acima são sinais cognitivos, mas há também marcadores comportamentais. Nesse caso, o mais recorrente é a microgestão de relacionamentos, quando a pessoa quer ajustar o tom de cada mensagem, ação ou palavra, revisando-as excessivamente nos diversos contextos. Há ainda a dificuldade de delegar, por achar que ninguém fará direito.

Há também os sinais emocionais de pessoas que estão patologicamente tentando ter controle sobre tudo. “Irritabilidade geralmente desproporcional a imprevistos pequenos é um exemplo. É, por exemplo, um trânsito que acontece, um atraso, e a pessoa acaba fazendo uma tempestade em copo d’água. Isso acaba gerando uma fadiga mental constante”, salienta.

“Em relação a todos esses sinais, a gente tem que pensar o seguinte: um pouco disso acontece, é normal. Quando é patológico, é excesso. É quando esses comportamentos que eu listei começam a atrapalhar a vida da pessoa, que não dorme ou não trabalha direito, se sobrecarregando o tempo todo. A pessoa está o tempo todo estressada”, analisa.

Ele assinala que um controlador não é um tipo, mas sim um estado que qualquer um pode adotar quando a sensação de vulnerabilidade aumenta. “Isso se torna um problema quando vira um padrão excessivo e constante”, avisa. Os casos mais evidentes envolvem perfeccionistas e indivíduos com histórico de imprevisibilidade.

A tecnologia também estimula esse caráter obsessivo. “O design das plataformas digitais é propositalmente pensado para que a gente tenha estímulos em intervalos imprevisíveis. São curtidas, notificações e mensagens que podem chegar a qualquer momento. A gente fica preso nesse ciclo o tempo todo, acompanhando, verificando e tentando alimentar a falsa ideia de que temos o controle das coisas”.

Desistir é palavra proibida

Outro lado da obsessão por controle é a ideia de desistência, que é bastante malvista na sociedade. O escritor e pesquisador Alexandre Gossn salienta que, dentro da evolução da humanidade, a desistência poderia ser fatal, já que geraria chances menores de adaptação a mudanças climáticas e a longas jornadas migratórias.

“Se na Antiguidade e na Idade Média a perseverança estava mais associada a resistir e aceitar a vontade de Deus, na era moderna, com o advento do capitalismo e da crença de que tudo posso se tiver as ferramentas certas, o sucesso ‘aqui e agora’ tomou o lugar do Paraíso. Logo, desistir se tornou uma vergonha, porque se pensa que o sucesso só depende de si mesmo”, analisa.

Gossn afirma que não há espaço na crença moderna para concebermos que nem sempre alcançamos o que desejamos – seja porque podemos não ser aptos, seja porque faltou sorte, porque mudamos de objetivos ou porque descobrimos que o custo para obter esse “sucesso” é alto demais.

“Há um cenário vendido de que a vitória, o sucesso absoluto, está ao alcance dos 8 bilhões de habitantes do planeta. Todos podem ser um Elon Musk, basta querer e se esforçar. Essa é uma crença de exigência absurda, que torna os anseios de cada um de nós homogêneos demais. A obrigação do sucesso é uma forma de opressão discreta e muito eficaz, que atende a diversos interesses econômicos”, salienta.

Gostou? Compartilhe