Contextualizando

Um guia para vencer as eleições presidenciais

Em 19 de Agosto de 2026 às 18:30

Jornalista Fabiano Lana:

“Estão liberadas as campanhas de acordo com nossa intrincada legislação eleitoral, que na teoria busca contornar o fato de que político bem-sucedido busca voto dia sim e dia também sim. Mas no Brasil temos o fenômeno, agora recorrente, de que o asco ao adversário é tão ou mais decisivo do que a simpatia ou fanatismo pelo preferido. Dito isso, um pequeno guia – quem sabe para os demais candidatos – do que irrita, sobretudo, o eleitor que ainda não se definiu.

Comecemos pelo caso petista. Nada mais enervante para um desiludido do que a ladainha contra a operação Lava-Jato. Ok, que existiram abusos e deslumbramentos. Mas dizer que os crimes nunca existiram: tenham a santa paciência. Lula foi condenado em duas instâncias e a outra opção é que nosso sistema de justiça é viciado, inclusive a cúpula.

Por falar em judiciário, a parceria política do governo Lula com a maioria dos integrantes do Supremo Tribunal Federal tem algo de atemorizante. Como se na nossa democracia não existisse independência entre os poderes. Nisso, atropelam direitos fundamentais, como a liberdade de expressão ou o sigilo da fonte de jornalistas, inclusive com aplausos. Aliás, a aliança com o ex-herói e atual vilão percebido, Alexandre de Moraes, depois do caso Vorcaro e outras ações de cunho despótico, é um argumento bastante utilizado para não se apertar a tecla 13 em outubro.

Tem também a história da economia. Se há uma coisa a se agradecer ao tal centrão é resistir e barganhar as propostas econômicas do Partido dos Trabalhadores. No fundo, a turma que abraça Lula, em geral, acha que tudo o que a ex-presidente Dilma implantou e que nos levou a uma das maiores recessões da história estava correto. Se não deu certo, foi azar e boicote. Caso não haja resistência, tentam fazer tudo de novo e afundam de vez o País. Enquanto isso, Lula se proclama como o melhor terráqueo escolhido por Deus que já veio à Terra.

Essa história de venerar ditaduras de esquerda não ajuda nada (confiram o vídeo de Dilma sobre o centenário de Fidel Castro). Aliás, o vício em proibir também aborrece. Parece ser um departamento da primeira-dama Janja da Silva. 'Todo problema brasileiro só será resolvido com algum banimento.' Isso dá um pouco de medo de que, no final das contas, seja só autoritarismo. Ainda mantém algo do identitarismo intolerante que é uma máquina de jogar eleitor para outro lado (Atenção, Caetano Veloso e Wagner Moura já pularam fora). Por fim, e não menos importante, a ideia de nós contra eles. Se não os apoiam e preferem outro candidato, são a escória do País.

No caso de Flávio Bolsonaro, o fator de rejeição é o próprio candidato para os supostos eleitores que se consideram fora da disruptiva petismo contra bolsonarismo. Certos setores que esperavam alguém para acabar com essa disputa insana, nem que fosse do grupo, como o ex-governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tiveram que engolir o bolsonarismo vacinado de Flávio. Insosso como pessoa pública e algo opaco na vida pessoal, devido às suspeitas de enriquecimento ilícito por rachadinhas, envolvimento com milícias, e tudo mais. Nisso, pedir dinheiro para o banqueiro Daniel Vorcaro foi só a cereja do bolo.

Outro fator de exasperação são os demais irmãos Bolsonaros. Não conseguem sair do modo agressividade on. É ataque atrás de ataque. E seguem com obsessões contraprodutivas como ser contra vacinas, desconfiar de urnas eletrônicas, além de uma posição de parecer rejeitar o mundo civilizado. Odeiam inclusive os centristas e mesmo direitistas que não os idolatram – como se não precisassem dos seus votos (não sabem fazer contas?). Tudo isso numa linguagem ao mesmo tempo vulgar, rasa e bastante empolada.

Há também a bajulação aberta ao presidente americano Donald Trump, um líder que não parece disfarçar um desprezo aberto a todos que não sejam WASP (White Anglo-Saxon Protestant). Ou seja, quem não for branco, de origem europeia e protestante, Donald só quer ver como capacho, o que inclui os próprios bolsonaros.

Por trás do discurso de defesa da liberdade, há certo desprezo pela democracia formal, tantas vezes proclamada pelo próprio líder do clã, Jair, hoje em prisão domiciliar, entre outros motivos, por falar demais. Aprontam, forçam os limites, e depois se fazem de vítimas com a reação, despropositada ou não. Bolsonaro também se considerava uma espécie de salvador da nossa pátria por causa das intenções divinas.

Por fim, e não menos importante, a ideia de nós contra eles. Se não os apoiam e preferem outro candidato, são a escória do país.”

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