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'Vovó Tutu': idosa serve pães diariamente para 130 famílias carentes em SP

Razões Para Acreditar | 20/07/21 - 12h35 - Atualizado em 20/07/21 - 12h41
Reprodução/Instagram

Com a ajuda dos netos, a dona Maria Paulina, 69 anos, se tornou uma sensação na internet, onde ganhou o carinhoso apelido de “Vovó Tutu“.

Meses atrás, Thalys, 8 anos, resolveu filmar a vovó batendo massa de pão. Com o vídeo em mãos, pediu ajuda ao irmão mais velho, o Mayan, 12 anos, para editar e deixar a ‘produção’ mais ‘profissa’.

O resultado final foi postado nas redes sociais – eles só não imaginavam que aquele vídeo despretensioso mudaria a vida da avó, que faz um lindo trabalho social na Brasilândia, zona norte de São Paulo (SP).

Com o apoio conquistado nas redes sociais, Tutu organizou uma banquinha armada na porta de casa, onde distribui cerca de 1,7 mil pães e 300 litros de chá todos os dias para uma comunidade carente.

Como tudo começou

Maria Paulina é filha de uma empregada doméstica e de um lavador de carros. Ganhou o apelido do irmão mais velho, que cuidou dela na infância, anos em que esperava na fila da sopa por uma oportunidade de se alimentar.

Viver com o pai, sempre instável e por vezes violento, se tornou insustentável. “Para me proteger da truculência paterna, minha mãe me internou, como órfã, em uma instituição de freiras, a Casa da Divina Providência Madre Teresa Michel, na Mooca. Fiquei lá dos 7 aos 14 anos”, contou Tutu.

Convivendo com as freiras, ela teve inúmeros exemplos de doação e caridade. “Às vezes, saíamos com elas para pedir doações. Eu sentia muita admiração por aquilo”, disse.

Ao deixar a Casa, ela decidiu tocar adiante sua vocação para ajudar o próximo.

Nos anos seguintes, trabalhou no departamento de limpeza do Hospital das Clínicas, onde esbarrava constantemente em mães e crianças carentes, por vezes com fome.

Por vezes, Maria Raulina se enxergava naquelas mulheres e seus bebês. “Eu ia até o refeitório e pedia um lanche, alguma coisa que tivesse sobrando para dar para aquelas mulheres. Se precisasse, eu pegava escondido mesmo”, revelou. Ao todo, trabalhou 12 anos na instituição.

Venda de quentinhas e adoção inesperada

A partir de 1996, resolveu se dedicar à venda de marmitas, lanches e geladinhos. Tinha dia que vendia até 100 marmitex para ex-colegas de trabalho e conhecidos.

Foi nessa época que adotou sua primeira filha, a Lurdes, de 17 anos, que dormia nos bancos do Instituto da Criança (HC) quando foi acolhida.

“Ela tinha se desentendido em casa. Não tinha onde morar. Não pensei duas vezes, levei-a para casa”, lembra Tutu. O gesto foi repetido mais três vezes: foram 3 acolhimentos que se somaram aos 6 filhos biológicos. Hoje, a idosa tem 26 netos e 9 bisnetos.

Trabalho voluntário

No distrito da Brasilândia e seus 41 bairros, Tutu passou a fazer da própria vida um constante exercício de doação: começou a organizar festas de aniversários para crianças carentes e convidar idosos para rotinas de atividades físicas.

“Cheguei a montar um salão em cima de casa para tocar o meu trabalho voluntário”, relembra.

Nesse meio-tempo, a mãe de Tutu começou a apresentar sinais graves de Alzheimer, uma doença vista como tabu na comunidade. “O desconhecimento da doença fazia com que muita gente tratasse os pais como se fossem loucos”, lembrou.

Tutu enxergou essa realidade como um novo caminho para chegar ao próximo. “Organizei palestras com especialistas na UBS do bairro sobre Alzheimer. Também criei uma espécie de apadrinhamento de idosos, com doação de fraldas, curativos e remédios”.

Restaurante

Nos anos em que se dedicou à caridade, Maria guardou um sonho consigo: abrir um restaurante.

No fim de 2019, um dos filhos alugou um espaço para que ela pudesse abrir o Cantinho da Vovó Tutu. “Compramos mobília, decoramos, deixamos tudo perfeito. Em oito meses, começamos a formar nossa clientela. Infelizmente, foi também quando chegou a pandemia”, observa.

As dívidas acumularam e infelizmente a família não resistiu: o restaurante fechou sem completar um ano de existência. “Foi uma das piores experiências que eu tive, uma ilusão que terminou com muita dor e decepção.”

No meio da pandemia, Tutu precisou se fechar em casa. Entrou em depressão e sentiu-se mais isolada do que nunca. Para vencer a doença, resolveu agir. “Sabia que, com a pandemia, a fome ia bater na porta da periferia. Eu tinha de fazer alguma coisa”, afirma.

Com uma pequena quantia em dinheiro que tinha, começou a produzir pães para doação.

De início, entregava de 100 a 200 pães por dia – e para poucas famílias da vizinhança.  Entretanto, em menos de 2 meses, o número de moradores atrás dos pães da vovó cresceu sem parar.

“Eu não ia dar conta. Eu batia aquela massa toda na mão. Eram 18 quilos de massa. Não ia conseguir manter aquela ajuda. Não tinha dinheiro nem condições físicas para atender muita gente”, relembra.

E é aí que os netos Mayan e Thalys, que a gente mencionou lá no início, entram na história: Thalys filmou a Vovó Tutu batendo a massa dos pães; e Mayan ficou responsável pela edição do vídeo.

Publicado na internet, o vídeo viralizou rapidamente, criando uma espontânea onda de solidariedade em favor da idosa.

“Comecei a receber doações de tudo quanto era lugar. As pessoas passavam na frente de casa e me deixavam muitas coisas. Logo, e com ajuda da família, passamos a produzir mais e a atender muito mais gente”, contou.

As boas novas chegaram até ao padre Fábio de Melo, que entrou em contato e começou a ajudá-la, bem como outros famosos, como o apresentador Luciano Huck, a chef Paola Carosella e a jornalista Ana Paula Padrão.

Agora, Vovó Tutu atende, diariamente, cerca de 130 famílias. São dois pães por pessoa e mais o chazinho. “Conseguimos criar o Instituto Vovó Tutu. Agora, vamos buscar recursos para atender ainda mais famílias. A ideia é continuar o trabalho e montar uma escola de panificação e confeitaria para ensinar a mães e crianças algo que também pode gerar alguma renda”, explicou Tutu.

Para a idosa, a rotina de produção de pães e distribuição parece preenchê-la de energia e amor. “Eu me coloco no lugar das pessoas, me coloco no lugar de quem não tem um pão para dar para um filho”, completou.