Um estudo publicado na revista Nature trouxe detalhes sobre um fenômeno que resultou em 695 bilhões de toneladas a mais de gelo na Antártica, algo que intriga os cientistas. De acordo com a pesquisa, o acumulo de massa ocorreu entre julho de 2021 e abril de 2023.
O número chama atenção porque ocorreu em um continente que, nas últimas décadas, apresenta uma tendência geral de perda de gelo. Agora, pesquisadores conseguiram identificar uma ligação entre esse episódio incomum e mudanças atmosféricas iniciadas a milhares de quilômetros de distância, nos oceanos tropicais.
Apesar do ganho de gelo, isso não significa que a Antártica tenha revertido o processo de perda de gelo associado às mudanças climáticas. O fenômeno foi temporário e ocorreu principalmente por causa de uma quantidade excepcional de neve acumulada na Antártica Oriental.
O que fez a Antártica ganhar tanto gelo
A explicação começa longe do continente congelado. Entre 2021 e 2023, uma extensa região de águas tropicais localizada entre o oeste do Oceano Pacífico e o leste do Oceano Índico permaneceu mais quente durante um período prolongado.
Esse aquecimento alterou o comportamento da atmosfera e desencadeou uma sequência de ondas conhecidas como ondas de Rossby. Elas são grandes perturbações atmosféricas capazes de transportar energia e modificar padrões de circulação por milhares de quilômetros.
No caso estudado, essa alteração chegou até a Antártica Oriental e reorganizou a circulação atmosférica sobre a região. O resultado foi um ambiente mais favorável ao transporte de umidade para o continente, aumentando a ocorrência de precipitações em forma de neve.
Onde o aumento foi mais significativo
A maior parte da mudança ficou concentrada na Antártica Oriental, especialmente nas regiões de Queen Mary Land e Wilkes Land. O episódio, portanto, não representou um crescimento uniforme de toda a camada de gelo do continente.
Essa diferença é importante porque a Antártica possui comportamentos distintos em seus diferentes setores. Enquanto determinadas áreas receberam uma quantidade excepcional de neve, outras continuaram apresentando perda de massa.
Os pesquisadores utilizaram dados de satélites como GRACE e GRACE-FO para identificar essas alterações. Esses equipamentos conseguem detectar mudanças no campo gravitacional da Terra provocadas pela redistribuição de grandes quantidades de massa, permitindo estimar quanto gelo foi perdido ou acumulado em diferentes regiões.
Por que a descoberta é importante
O resultado ajuda os cientistas a entender por que a massa de gelo da Antártica pode apresentar variações expressivas mesmo dentro de um cenário de perda de longo prazo.
A descoberta também mostra que observar apenas o volume total de gelo em determinado momento pode levar a uma interpretação equivocada. Para compreender o comportamento do continente, é necessário analisar de onde veio a mudança, quanto tempo ela durou e quais processos foram responsáveis por ela.





