Um estudo conduzido por pesquisadores do Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos, acompanhou 3.093 adultos americanos ao longo de 14 anos para investigar a relação entre a quantidade de passos diários e o desempenho cognitivo. Os dados, coletados entre 2009 e 2023, mostraram uma relação clara entre movimento e capacidade mental.
A pesquisa usou dados de dispositivos Fitbit e do programa All of Us, dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, para medir a atividade diária. Ao contrário de estudos anteriores, que dependiam de relatos dos próprios participantes, frequentemente imprecisos, este trabalho usou registros objetivos dos dispositivos vestíveis.
Como o estudo foi conduzido, resultados e implicações práticas
Os participantes tinham idades entre 18 e 93 anos, com média de 58 anos. Os pesquisadores avaliaram o desempenho cognitivo em quatro tarefas: manter a atenção, ignorar distrações, escolher entre recompensas imediatas e tardias e reconhecer expressões faciais.
A análise dos registros de atividade separou os participantes em três grupos: um com média de 5.108 passos diários, outro com 8.875 e um terceiro com 14.161 passos por dia. Os grupos mais ativos apresentaram resultados significativamente melhores nas tarefas de atenção, controle de distração e escolha de recompensa.
Depois de ajustar os dados por idade, escolaridade, renda, estado civil e local de nascimento, os pesquisadores mantiveram as diferenças observadas. Quem caminhava entre 8.875 e 14.161 passos por dia obteve pontuações de atenção sustentada entre 1,76 e 2,17 pontos acima das registradas pelo grupo menos ativo.
Segundo Olaoluwa Okusaga, psiquiatra do Baylor College of Medicine e um dos coordenadores da pesquisa, essas melhorias podem se traduzir em benefícios concretos no dia a dia: manter a concentração no trabalho. Evitar decisões impulsivas e seguir objetivos de longo prazo, como poupar dinheiro ou manter um plano de saúde.
Apesar dos resultados, Okusaga enfatizou que o estudo não estabelece uma meta definitiva de passos diários para a saúde cognitiva. Trata-se de um trabalho observacional, desenhado para identificar associações, não para provar causa e efeito direto.
Os pesquisadores reconheceram outras limitações: a cognição foi medida apenas uma vez durante o acompanhamento, impossibilitando avaliar se as capacidades mentais melhoraram ou pioraram ao longo do tempo. O estado cognitivo inicial dos participantes também pode ter influenciado quanto eles se movimentavam.
A análise também não considerou fatores como tabagismo e obesidade. A amostra era predominantemente branca, com aproximadamente dois terços de mulheres, e quase todos tinham algum nível de educação superior. Comportamentos cotidianos, como concentração no trabalho ou decisões financeiras, não foram avaliados diretamente.
Publicados na revista Scientific Reports, os achados mostram uma associação entre atividade física e cognição. Aumentar a movimentação diária, porém, não garante melhora na saúde mental.
A associação entre mais passos, atenção e decisões
O estudo não explica o mecanismo biológico por trás da conexão entre movimento e cognição. O que os pesquisadores encontraram foi uma associação: pessoas que caminham mais pontuam melhor em testes de atenção, controle de distração e escolha de recompensas.
Okusaga deixa claro que a pesquisa identificou essa relação, mas não provou que caminhar causa essas melhorias mentais, outras características dessas pessoas poderiam estar por trás dos resultados.
Pesquisas anteriores sobre atividade física e saúde dependiam do que as pessoas lembravam e relatavam sobre seu próprio movimento, dados frequentemente imprecisos ou tendenciosos. Este trabalho utilizou dispositivos Fitbit e o programa All of Us dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, fornecendo registros objetivos e contínuos de atividade.
Isso permitiu aos pesquisadores trabalhar com informações muito mais confiáveis e avaliar padrões reais de movimento ao longo do tempo, em vez de depender da memória dos participantes.
Caminhar mais melhora as habilidades cognitivas?
Não se sabe. O estudo mostrou que pessoas mais ativas apresentam melhor desempenho cognitivo, mas não conseguiu determinar se caminhar melhorou suas habilidades ou se pessoas com melhor cognição naturalmente se movem mais.
Os pesquisadores reconheceram que as habilidades cognitivas preexistentes dos participantes podem ter influenciado o quanto eles se movimentavam.
O estudo foi observacional, apenas observou o que acontecia, e não foi desenhado para provar que aumentar o número de passos melhora a capacidade mental.





