Há 18 anos, Doogie Sandtiger anotou dois sonhos numa lista pessoal: quebrar ou estabelecer um recorde Guinness e ter sua foto no livro de recordes.
Os dois se realizaram: ele conquistou o título de maior colecionador de Crocs do mundo, com 3.569 pares oficialmente registrados em novembro de 2024. Desde então, a coleção cresceu para mais de 3.800 pares.
Morador de Wethersfield, Connecticut, Doogie viu sua coleção ganhar destaque internacional na edição de 2026 do Guinness World Records, com duas páginas dedicadas ao feito.
Mas sua trajetória vai além dos números: o hobby se tornou instrumento de transformação pessoal e de conscientização sobre o sistema de acolhimento familiar nos Estados Unidos.
Doogie Sandtiger e sua coleção recorde de Crocs
Criado no sistema de acolhimento familiar, Doogie viveu uma infância marcada por mudanças constantes entre diferentes famílias em Connecticut.
Ninguém lhe ensinou a amarrar sapatos, um detalhe que o deixou envergonhado durante toda a adolescência e o levou a usar apenas calçados com velcro, slip-ons ou sandálias de borracha.
No ensino médio, seus sapatos de velcro chamaram a atenção de colegas que zombavam dele.
Mesmo assim, relutava em pedir ajuda a adultos, com medo de admitir que, naquela idade, não dominava uma habilidade tão simples.
Disse a repórteres que a timidez o impedia de buscar apoio e manteve a insegurança durante anos.
Tudo mudou no dia em que Doogie avistou uma mulher usando Crocs lavanda durante uma caminhada pelo bairro.
Ele viu arte naqueles sapatos, considerados feios por muitos, e comprou seu primeiro par, um Croc preto simples, naquele mesmo dia.
A coleção começou a crescer a partir daí, embora seu objetivo inicial fosse acumular apenas 366 pares, um para cada dia do ano, incluindo o dia adicional dos anos bissextos.
Ao explicar o plano original, brincou que não faria sentido chegar a 29 de fevereiro sem um par para usar.
De hobby a propósito social
À medida que a coleção crescia, Doogie percebeu que poderia estar a caminho de um recorde mundial.
Hoje, trabalha no Departamento de Crianças e Famílias de Connecticut e mantém uma forte ligação com os livros de recordes que lia na infância.
Ele se fascinava ao ver pessoas realizando feitos extraordinários nas páginas coloridas.
Segundo entrevista concedida à NBC Connecticut, Doogie explicou como esses livros o inspiraram: considerava aquelas pessoas como heróis, e sonhava em um dia ser um deles.
Mas sua determinação se concentrava em transformar a coleção de sapatos numa plataforma de conscientização real.
À NBC Connecticut, Doogie disse que relembrar a própria vida como adulto é tão curativo quanto reescrever e reviver o que seu eu infantil não pôde viver.
À Colorado Public Radio, Doogie falou sobre os desafios enfrentados por crianças no sistema de acolhimento.
Ao passar por diferentes famílias, muita coisa se perde no caminho, e raramente há continuidade no cuidado. Cada colocação desconsidera o que a criança aprendeu antes.
O recorde se tornou uma ferramenta para dar visibilidade a essa mensagem.
Ao falar sobre sua jornada, Doogie traz à tona histórias invisíveis de crianças que enfrentam fragmentação e falta de apoio durante os anos de formação.
Para garantir a durabilidade do recorde, ele esperou até ter mais de 3 mil pares antes de apresentar a candidatura.
Quando contou oficialmente seus 3.569 pares no Keeney Cultural Memorial Center, em Wethersfield, durante uma sessão de 13 horas, decidiu doar o certificado ao museu para inspirar outras crianças criadas no sistema de acolhimento.
Em 2 de setembro, a prefeitura de Wethersfield instituiu o “Croc King Doogie Day” em sua homenagem.





