Na noite de Halloween, um espetáculo raro voltou a capturar a atenção de astrônomos em todo o mundo. O cometa interestelar 3I/ATLAS, um visitante vindo de fora do Sistema Solar, ressurgiu após semanas oculto pelo brilho do Sol, sendo registrado por um poderoso telescópio no alto de uma montanha nos Estados Unidos.
O flagrante foi feito pelo astrônomo Qicheng Zhang, do Observatório Lowell, que opera o Telescópio Discovery, instalado a mais de 2.300 metros de altitude na cadeia de montanhas de Happy Jack, no norte do Arizona. A imagem obtida representa o primeiro retrato óptico do cometa após sua passagem pelo periélio, o ponto mais próximo do Sol em sua trajetória.
Uma visão rara
Na fotografia, o 3I/ATLAS aparece como um ponto branco brilhante no centro da imagem, enquanto uma estrela próxima surge distorcida devido ao movimento do cometa. Zhang relatou que o objeto pôde ser observado até mesmo com telescópios menores, tornando-se acessível a astrônomos amadores do Hemisfério Norte.
“Tudo o que é preciso é um céu limpo e um horizonte leste baixo”, explicou o pesquisador ao site Live Science. Segundo ele, o cometa deve se tornar gradualmente mais visível nas próximas noites, à medida que se afasta do Sol.
Descoberto em julho, o 3I/ATLAS é apenas o terceiro objeto interestelar já detectado cruzando o Sistema Solar. Ele viaja a mais de 210 mil quilômetros por hora em uma trajetória praticamente retilínea, o que indica que está apenas de passagem e não ficará preso pela gravidade solar.
Um visitante que mudou de cor
Durante o mês de outubro, o cometa ficou invisível da Terra ao passar atrás do Sol. No dia 29, atingiu o periélio a cerca de 210 milhões de quilômetros de distância da estrela. Mesmo fora do campo de visão terrestre, sondas solares continuaram monitorando o objeto para que os cientistas não perdessem dados sobre esse raro visitante.
Momentos antes da aproximação máxima, Zhang e seu colega registraram um aumento inesperado no brilho e uma coloração azulada incomum, resultado da liberação de gases e sublimação do gelo em sua superfície. A tonalidade intensa chamou a atenção dos pesquisadores, que agora analisam o fenômeno em um estudo submetido ao servidor científico arXiv.
“Essa coloração indica que o cometa está reagindo ao calor solar de forma muito ativa”, explicou Zhang. “Ainda precisamos de mais observações para entender o comportamento dessa poeira e desses gases.”
O desafio de fotografar um cometa tão próximo do Sol
Zhang destacou que o Telescópio Discovery é um dos poucos instrumentos de grande porte capazes de observar tão perto do horizonte. A captura foi feita quando o cometa estava a apenas 16 graus do Sol, um intervalo de tempo em que o céu ainda permanecia escuro o suficiente para o registro óptico.
Antes da sessão oficial, o astrônomo utilizou um telescópio menor, com lente de 15 centímetros, para testar as condições do céu e ajustar o tempo de exposição. A estratégia foi essencial para garantir que o raro momento fosse documentado.
Um mensageiro de outro sistema estelar
Apesar de teorias fantasiosas que costumam surgir nessas ocasiões, não há qualquer indício de que o 3I/ATLAS seja uma nave alienígena, reforçam os cientistas. Tudo indica que o objeto é um cometa natural, vindo de um sistema estelar desconhecido da Via Láctea.
Estudos preliminares sugerem que o 3I/ATLAS pode ser até três bilhões de anos mais velho que o próprio Sistema Solar. A longa exposição à radiação cósmica teria formado uma crosta escurecida e resistente, dificultando a análise de seus materiais primordiais.
Conforme o cometa se afasta do Sol, os pesquisadores esperam que sua atividade diminua, permitindo medir a quantidade de gás e poeira ainda liberada, dados que podem ajudar a reconstruir sua origem e história.





