Nicole Maria de Lima Braga, mãe do menino Rhavy Abraão Alves de Lima, e Manoel Pedro Tavares de Souza, padrasto do menino, trocaram acusações durante o depoimento no júri popular. Os dois estão no banco dos réus pela morte do menino de apenas 2 anos de idade, ocorrida em maio de 2025, em Riacho Doce, Litoral Norte de Maceió. O julgamento acontece desde a manhã desta segunda-feira, 19, no Fórum do Barro Duro.
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Ambos os depoimentos foram divulgados à imprensa pela assessoria de comunicação do Ministério Público do Estado, que acompanha o júri diretamente do tribunal.
O que disse o padrasto
O primeiro depoimento dos réus foi o do de Manoel Pedro. Ao juiz Geraldo Amorim, da 9ª Vara Criminal de Maceió, que conduz o júri no Fórum da Capital, ele afirmou que era traficante e negou o crime.
"Pra ser sincero ao senhor, eu não trabalhava, eu era traficante na área. É vergonhoso pra mim, mas é a verdade e eu não vou negar aqui. [...] Senhor, eu nunca ia ter essa coragem de fazer nada com uma criança, eu sou um homem. Pra mim foi minha ex-companheira, a Nicole, se só estava eu e ela em casa?!".
Questionado sobre o episódio em que Rhavy teve com cola nos olhos, que foi debatido ao longo de outros depoimentos no júri, o réu rebateu e disse que a ex-sogra mentiu.
"A Nicole foi trabalhar e os meninos ficaram em casa, estava a mãe dela (a avó) e eu, que estava dormindo, com sono pesado, nem sabia que ela tinha deixado o menino no quarto comigo".
"Na noite antes do crime, começamos a beber por volta das 14h. Por volta das 20h fui dormir porque não aguentava mais. Aí chegou o Williams (testemunha no júri) e eu vendi (droga) e ele foi embora. Ela (Nicole) disse que não ia dormir naquela hora porque ainda ia dar banho nos meninos e arrumar a casa, porque, no outro dia, o mais velho tinha aula", disse o réu.
A promotora de Justiça Adilza de Freitas está representando o Ministério Público do Estado no julgamento.
"Doutora, eu era traficante, mas essas mãos aqui nunca matariam uma criança, até porque nesse meio não é perdoado. Quero que a Justiça seja feita, mas de verdade, e condene quem realmente fez isso com a criança. Eu, quando era menor, fui acusado de tentativa de homicídio, fui absolvido. Eu andava armado, eu assumo os meus erros", afirmou Manoel à promotora.
O que disse a mãe
Logo em seguida, foi a vez de Nicole prestar depoimento. No banco dos réus, ela chorou, negou ter matado o próprio filho e contou que o relacionamento com Manoel Pedro havia acabado antes desse caso.
"Inclusive, disse que não saberia viver sem a minha pessoa e que se eu não voltasse pra ele, ia se matar. Aí eu saí procurando ele e achei ele em cima de um coqueiro, quando ele desceu, eu vi que estava com um punhal e ele disse que estava pronto pra se matar. Aí levei ele pra minha casa, parecia que estava tudo resolvido entre a gente", relatou Nicole em aspas reproduzidas pela assessoria do MPAL.
Ela contou que, no dia anterior, ela e o marido beberam, que ela fez um drink, eles beberam, comeram, depois ele foi dormir e ela foi arrumar as coisas e fazer papa para as crianças.
Nicole manteve a versão de que foi à academia no dia em que Rhavy morreu e depois foi à casa da irmã lavar roupa, quando recebeu o telefonema do marido.
"Dizendo que meu filho não estava respirando, aí sai correndo desesperada, vi uma viatura da polícia, dei a mão e disse que meu marido ligou dizendo que meu filho não estava respirando. Então eles me levaram. E o meu marido não demonstrou nenhum sentimento, só disse: 'Você tem que ser forte porque tem mais dois filhos para criar'. E mandou eu comprar quentinha para os meninos".
Ao ser questionada sobre agressões contra os filhos, Nicola disse que nunca espancou os filhos, mas que já deu umas "palmadas e colocou de castigo".
A promotora perguntou o horário em que Nicole ficou sabendo que não se tratava de morte natural. "Só soube à noite, até então pensava que era morte natural, que poderia ser até hidrocefalia, já que estava com suspeita".
Sobre o episódio da cola nos olhos do menino, a ré respondeu que tinha ido trabalhar na praia.
"Quando, por volta das 13h, do nada, ele chegou onde eu estava e disse que eu tinha que ir pra casa. Quando cheguei lá, sou vi os outros meninos e aí perguntei por Rhavy, foi quando ele disse que tinha sido levado para a UPA por minha mãe, porque ele (Rhavy) tinha colado os olhos com cola super Bonder. Aí eu disse: 'Como você deixou acontecer isso, véio, se ele cegar?'. Fiquei desesperada, e o meu filho foi levado para o HGE porque na UPA não resolveu".
O julgamento está em andamento e segue para as definições finais ao longo do dia.
O caso
Rhavy Abraão Alves de Lima, de dois anos, foi encontrado morto com sinais de violência no Povoado Boca do Rio, na Garça Torta, em Maceió, em 13 de maio de 2025.
No dia em que a morte do menino foi registrada, Nicole havia abordado uma viatura da Polícia Militar para dizer que o filho precisava de socorro. A Polícia Militar foi até a casa, encontrou a criança sem sinais vitais e chamou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), que confirmou o óbito e localizou múltiplos hematomas no corpo do menino.
No dia 14 de maio de 2025, o delegado delegado Emanuel Rodrigues, da Unidade de Atendimento de Local de Crime (UALC), da Polícia Civil de Alagoas, divulgou que o corpo de Rhavy apresentava uma lesão de 12 por 8 centímetros na região da coluna, o que provocou a morte por hemorragia hepática.
O Ministério Público do Estado de Alagoas defende a condenação da mãe e do padrasto por homicídio com as três qualificadoras: a motivação do crime, o meio cruel praticado e o uso de recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
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