Justiça

Filha de vereador morto em 2011 faz texto emocionado em rede social

16/02/17 - 13h52 - Atualizado em 16/02/17 - 14h11
Reprodução

Antes do julgamento, desta quinta-feira (16), dos três réus acusados de participação na morte do vereador de Anadia, Luiz Ferreira, em setembro de 2011, um depoimento gerou comoção nas redes sociais. A filha do vereador, Mariana Pércia, publicou um texto emocionado através do Facebook, onde homenageou o pai, criticou os prováveis envolvidos no crime e pediu uma sociedade mais justa.

Ela, que é médica, profissão que Luiz Ferreira também exercia, destacou sobre a angústia de não ter se despedido do pai e relatou que vive dias difíceis por ter que reviver toda a brutalidade que marcou o crime.

A médica pediu o comparecimento das pessoas durante o júri para dar apoio em busca da justiça. "Nada vai recuperar minha chance de me despedir do meu velho e nada supera essa dor. Depois que se enterra um pai baleado com 13 tiros, é difícil alguma dor que supere isso”, disse.

Os comentários foram dos mais diversos, e em boa parte, os usuários desejaram força e conforto para Mariana e sua família. Um deles disse que "sejam todos os envolvidos merecidamente punidos" e que "mesmo que não o traga de volta, tonificaria um pouco a moral para seguir a caminhada". 

Confira a publicação na íntegra:

"E você..sumiu no mundo sem me avisar..."

Julgamento e as despedidas

Não se despedir uma vez de alguém que a gente ama pode ser angustiante. Não se despedir de alguém que se ama e ter certeza que não vai mais vê-lo pode ser ainda mais. Não se despedir de um pai que se ama ainda mais é quase uma dor física. Não se despedir de um pai que se ama porque ele foi assassinado é aterrorizante.

A gente fica desnorteada, acha que ele vai voltar ..espera..procura..lê as escondidas a necrópsia pra ter certeza ..vai na oficina olhar de perto o carro baleado ..tudo pra ter uma certeza que só gera pânico, muito pânico.

Um dia o julgamento chega, e você que pensava, lá atras ...que seria um dia de alívio, sei lá o que se passava na cabeça. Mas não é verdade né?

Afinal ...para além da angústia de ter que reviver tudo, tomar cuidados excessivos, entre outras coisas....
eu sinceramente sempre enxerguei o direito como algo que tenta conciliar o inconciliável ...amortecer o que não se amortece, apaziguar o que está dividido..punir ou o que não tem perdão ou o então aprisionar aquilo que é produto da luta de classes (na maioria dos casos). Mas estamos numa sociedade e ele precisa existir certo?

Temos um sistema prisional perverso, bizarro, que tem como grande função social o encarceramento de jovens da periferia que em sua maioria não tiveram outra saída que não o tráfico.. sim..não tenho nenhuma ilusão que o sistema penal está lotado de assassinos incorrigíveis que precisam estar afastados da sociedade e que colocam dia após dia nossas vidas em risco. Não é porque vivo esse drama familiar que perdi a noção da realidade.

Uma vez vi uma reportagem que falava que apenas 4% dos presos eram por crimes bárbaros desse tipo...a imensa maioria são os avioezinhos do tráfico..os peixes pequenos..os que nem foram julgados e nem serão, porque não é pra isso que existe o sistema prisional. Os peixes grandes nunca estarão ali, a não ser que interesse muito a uma parcela dos peixes ainda maiores, como na lava jato.

Mas não posso negar que vivo outra coisa, vivo os 4%. Uma família alvo de assassinos, não apenas assassinos do meu pai. Eles não tiraram apenas o meu direito de me despedir..eles não infernizaram apenas a minha vida e da minha família.

Eles roubaram milhões de uma cidade miserável, eles fizeram fortuna sob a miséria dos outros. E roubam historicamente, hereditariamente. Vejam bem..não foi apenas a vida do meu pai. Foi e continua sendo a corrupção desenfreada que o direito não está aí pra se meter..afinal..o que um homicídio tem a ver com corrupção? Processos diferentes minha cara, você não entende. Não, não entendo e não quero entender.

Para os que não entendem, como eu, explico. Meu pai foi assassinado, no dia 3 de setembro de 2011, por estes que vão hoje a julgamento...semanas após ter formalizado uma denúncia de desvio de verba da prefeitura de Anadia, interior de Alagoas, onde ele era vereador e anunciou sua candidatura à prefeitura (no dia do seu assassinato).

No instante em que lhe arrancaram a vida eu só tive mais certeza da bizarrice que é essa sociedade e que nada no direito vai fazer ela ser justa. Não nesse sistema, onde nós temos medo e eles continuam milionários, com o dinheiro suado do povo.

Sei que a maioria das pessoas que está atras das grades, está também por uma sociedade que delimita desde o nascimento quem tem chances e quem está fora delas. Gostaria que essas pessoas soubessem que dividem a cela com inimigos de classe, com aqueles que têm sua fortuna toda baseada em em manter essas chances exatamente como elas são. Só gostaria.

Depois de amanhã (dia 16/02/17, às 08hs no Fórum do Barro Duro em Maceió) começa o julgamento de uma parte desses que me refiro. Espero sim que seja feito a justiça, mas nada vai recuperar minha chance de me despedir do meu velho e nada supera essa dor. Depois que se enterra um pai baleado com 13 tiros, é difícil alguma dor que supere isso. Não precisamos fazer disso estandarte no julgamento, é óbvio. É humano. E mais...o medo não passará por aqui novamente.

Aos que puderem comparecer agradeço, aos que não puderem, continuem a luta por uma sociedade mais justa!