Saúde

O que é feminização facial e quais cirurgias podem ser feitas?

Viva Bem/UOL | 26/07/22 - 09h54
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No processo de afirmação de gênero, homens e mulheres transexuais realizam cirurgias que permitem imprimir em seus rostos os traços com os quais mais se identificam. Muitas vezes, as intervenções partem de pressões sociais e pessoais —a chamada disforia— para aceitação e adequação.

"Os principais motivos que me levaram a buscar os procedimentos de feminização facial foram as questões relativas à aceitação, em relação ao corpo e a social", narra Yu Golfetti, 28, líder de desenvolvimento de negócios.

Para as cirurgias que pretendia realizar, ela guardou dinheiro por 4 anos. "Tentava gastar o mínimo possível, apenas o essencial, para ter a quantia para arcar com os procedimentos." Em maio de 2021, ela fez a frontoplastia para diminuir a testa e a raspagem do pomo de adão.

Segundo Golfetti, o apoio psicológico é fundamental —que teve durante uma parte dos anos em que economizou dinheiro— aliado aos esclarecimentos médicos. "Antes, havia diversas cirurgias que queria fazer, por sentir meu rosto disforme do padrão feminino que a sociedade impõe. E, com o atendimento do cirurgião, passei pela aceitação, inclusive desistindo de muitas delas."

As pessoas, ela comenta, repararam nas mudanças, pois eram duas características chamativas e que denotavam características mais masculinas. "Para mim, não é tão importante a visão dos outros, mas colabora em situações sociais."

As intervenções são consideradas estéticas. "No entanto, essa chamada estética é uma forma de passarmos por um padrão aceitável para a sociedade, que nos julga e nos exclui."

Para ela, todas as mulheres —trans e cis (que se identificam com o gênero de nascimento)— estão sujeitas ao padrão imposto, que precisa ser quebrado e desmistificado, pois é com base nele que muitas se submetem a procedimentos até desnecessários. "Se conversássemos mais sobre aceitação do corpo e menos sobre padrões teríamos uma sociedade mais justa na questão estética e menos julgadora", afirma.

O que é possível fazer?

São em torno de 12 procedimentos disponíveis que contemplam alterar as características faciais, como projetar as maçãs do rosto e os lábios, suavizar o contorno da testa e das têmporas, alterar a projeção e o contorno do nariz, até a reduzir o pomo de adão —cartilagem tireoidea acentuada—, no caso das mulheres trans que desejam suavizar os contornos masculinos.

Além dessas, segundo Suzy Vieira, cirurgiã plástica que atua nas áreas de cirurgia estética, reparadora e cosmiatria, ainda voltadas ao público feminino trans, é possível alterar a estrutura óssea para retrusão do queixo (mentoplastia), realizar implantes capilares e correção de áreas de calvície, laser para remoção de pelos e elevar dos supercílios.

Veja abaixo os tipos de cirurgias disponíveis:

Feminização

  • Reconstrução fronto-orbitária: mudança na testa, aplainamento ósseo, com placas e parafusos de titânio;
  • Recontorno mandibular: apagamento do ângulo mandibular;
  • Mentoplastia: redução ou avanço do mento (queixo), sempre produzindo um efeito triangular, com um queixo de cerca de 2,5 cm;
  • Redução do pomo de adão;
  • Rinoplastia: aumento do ângulo naso-labial e retirada da giba nasal, que é a saliência óssea localizada no dorso nasal.

Masculinização

  • Alargamento do ângulo mandibular;
  • Aumento de maçãs do rosto, alinhado com o ângulo mandibular;
  • Mentoplastia: avanço ou redução com o queixo largo entre 3,5 cm a 4,5 cm;
  • Microtransplante capilar;
  • Rinoplastia: deixando o ângulo nasolabial com 90°;
  • Bichectomia: redução da gordura facial;
  • Blefaroplastia: redução de pálpebras excedentes e com bolsas adiposas;
  • Lipoaspiração submandibular: para definição da região cervical.

Chamadas cirurgias de confirmação de gênero facial, elas são definidas com critério médico e analisadas caso a caso. "A atuação é conjunta entre cirurgião plástico e os demais profissionais envolvidos, como endocrinologista (hormônios), foniatras (tratamento da voz) e bucomaxilofacial para o bem-estar dos pacientes", afirma Moises Wolfenson, cirurgião plástico e professor de medicina da Uninassau (Centro Universitário Maurício de Nassau) de Olinda (PE).

Segundo a pesquisa "A construção do corpo e itinerários de saúde: um estudo entre travestis e pessoas trans no Rio de Janeiro", publicada em 2019, as plásticas de feminização facial foram uma perspectiva para mais mulheres cis do que trans e travestis: 53,6% das cis, 46,4% das trans e 46,2% das travestis consideravam esse tipo de procedimento.

Aureliano Lopes da Silva Junior, professor do curso de psicologia da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), comenta que as cirurgias fazem parte também de um desejo, muito naturalizado, cujo intuito é se sentir mais bonita e melhor, elevando a autoestima.

"Para minha tese de doutorado pelo Instituto de Medicina Social da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), de 2012 a 2016, acompanhei um concurso de beleza trans, que era parte de um projeto político, organizado por uma ativista já falecida, cujo objetivo era criar um espaço de visibilidade positiva, dentro do que ela chamava de cultura trans."

Da tese, ele conta que fez um recorte em um artigo "Feminização, estigma e o gênero facializado: a construção moral do gênero feminino por meio de cirurgias de feminização facial para travestis e mulheres transexuais" em que debate as normas sociais anteriores à cirurgia, já que muitas entendem as operações como uma obrigação.

"O resultado é muito bom. Essas cirurgias são procuradas e desejadas porque fazem com que o semblante seja identificado como feminino, sem retirar a identidade da pessoa, deixando-o proporcional aos próprios traços", detalha.

Homens trans recorrem menos às intervenções faciais

A cirurgia de masculinização facial ocorre com menor frequência. Dan Kaio Lemos, coordenador nacional do IBRAT (Instituto Brasileiro das Transmasculinidades) e doutorando em ciências sociais pela UnB (Universidade de Brasília) comenta que no caso dos homens trans o assunto não é tão falado devido às alterações já trazidas pela hormonização.

A testosterona (hormônio masculino) faz com que alguns ossos fiquem mais proeminentes, nas regiões fronto-orbital, mandibular e do queixo, por exemplo.

"Além disso, faz crescer a cartilagem da tireoide, que é justamente o que faz aparecer o pomo de adão. É possível inserir implantes nas regiões mandibular, do queixo, frontal e até fazer preenchimentos nesses locais para oferecer um contorno mais masculino", descreve Adriano Guimarães Brasolin, cirurgião plástico e professor da disciplina de cirurgia plástica da EPM-Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo).

Lemos relata que em 2014 começou a fase hormonal do seu processo de afirmação de gênero e um dos aspectos que chamou a atenção foram o surgimento dos pelos —escassos, anteriormente— e a alteração da voz.

"Antes, tenho vídeos em que se percebe minha voz fina e aguda. Houve toda uma mudança por meio da hormonização. Minha feição também mudou completamente, e os efeitos foram provocados apenas pela ação hormonal."

Onde fazer?

A Unifesp mantém o Núcleo TransUnifesp, que contempla pesquisa, ensino, extensão e assistência à pessoa trans com equipe multidisciplinar, que inclui psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, ginecologistas e cirurgião plástico, muitos dos quais são voluntários.

"O núcleo já realizou dez cirurgias de feminização facial. As de masculinização dependem de próteses, assim como as de feminização necessitam de parafusos de titânio, entre outros materiais quando realizadas, e o SUS (Sistema Único de Saúde) acaba não cobrindo os altos custos", informa Brasolin.

Os encaminhamentos ao NúcleoTrans são realizados via Cross (Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde), da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, que regula vagas do SUS.

Os hospitais habilitados junto ao SUS para a realização do processo transexualizador no país são: Hospital das Clinicas da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia; Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre; Hospital Universitário Pedro Ernesto, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro; Fundação Faculdade de Medicina, da Universidade de São Paulo, em SP; e Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco, no Recife.

Há ainda os ambulatórios em várias cidades para o acompanhamento da saúde, incluindo a mental, de homens e mulheres trans, contudo, as cirurgias plásticas não são realizadas.

A operação que reduz o pomo de adão e o procedimento de alongamento das cordas vocais para feminizar a voz, para mulheres trans e travestis, podem ser realizados pelo SUS, diferentemente dos faciais.