Pedi a Deus para ter uma morte digna, diz mulher resgatada viva no mar em Ilhabela

Publicado em 25/06/2026, às 09h50
Pedi a Deus para ter uma morte digna, diz mulher resgatada viva no mar em Ilhabela - Divulgação / GBMar
Pedi a Deus para ter uma morte digna, diz mulher resgatada viva no mar em Ilhabela - Divulgação / GBMar

Por João Pedro Feza / Folhapress

Bruna Damaris Sant’Anna da Silva, uma auxiliar de enfermagem de 26 anos, sobreviveu por 42 horas no mar após uma moto aquática afundar em Ilhabela, resultando na morte de seu colega Dheorge Pereira Bernardino, de 28 anos, que não conseguiu se salvar.

Durante o período à deriva, Bruna enfrentou esgotamento físico, alucinações e a desesperadora busca por ajuda, enquanto tentava manter a esperança de resgatar Dheorge, que acabou se afogando.

Após ser resgatada por pescadores, Bruna recebeu atendimento médico e está em acompanhamento psicológico, enquanto o responsável pela moto aquática foi indiciado por homicídio culposo e outras infrações, mas ainda não houve prisões relacionadas ao caso.

Resumo gerado por IA

Perdida em alto-mar após uma moto aquática apresentar falha e afundar na tarde de 24 de maio, a auxiliar de enfermagem Bruna Damaris Sant’Anna da Silva, 26, enfrentou 42 horas de luta pela sobrevivência em Ilhabela, no litoral paulista. Um mês depois, ela relembra detalhes do drama.

Durante o período à deriva, ela conta que sofreu esgotamento físico, perdas de consciência e alucinações. Chegou a pedir a Deus por uma "morte digna". O colega que pilotava não resistiu e se afogou. O corpo de Dheorge Pereira Bernardino, 28, foi encontrado pela Marinha no dia 27. "Fiz tudo o que pude para salvá-lo."

O que deveria ser apenas um passeio de moto aquática após uma confraternização em uma lancha transformou-se em tragédia.

Bruna, nascida e criada na vizinha São Sebastião, diz ter aceito o convite de Dheorge, que tinha conhecido pouco antes, para dar uma volta.

Sem celulares e já afastados do grupo, os dois perceberam que a moto aquática apresentava problemas. "A correnteza ia levando a gente", conta. Com coletes salva-vidas, chegaram a pular e a nadar em busca de ajuda, mas retornaram.

Divulgação / GBMar

Já durante a noite de domingo, o aparelho começou a se inclinar e se encher de água. Uma sequência de ondas acabou derrubando os dois. Na escuridão, a moto se foi.

Bruna conta que eles ainda tiveram tempo de encontrar uma cordinha com ganchos num compartimento e decidiram prender os coletes um ao outro para evitar a separação. Duas blusas também foram achadas na moto e vestidas pela dupla.

'NADANDO PARA A MORTE'

Na manhã seguinte, Bruna relata que tentaram sinalizar para um helicóptero, mas não foram vistos. Dheorge chegou a brincar sobre aves que voavam próximas, dizendo que tentaria capturá-las para comer.

Com o passar das horas, segundo Bruna, o colega começou a sentir dores e câimbras. Ela ainda tentou nadar até um barco avistado ao longe enquanto Dheorge se poupava, mas não teve êxito.

À noite, sob chuva e neblina, os dois passaram a apresentar sinais de desorientação. "Ele perguntava: 'Por que você não quer atravessar os portões?’. Falava que ia chamar o Uber. Eu também estava alucinando e via minha namorada chegando com uma maçã na mão."

Bruna conta que o estado físico de Dheorge piorou. Sem energia para bater as pernas, ele alternava momentos de lucidez e confusão. "Voltava a falar dos portões, tentava abrir o colete. Eu dizia: 'Vamos sair dessa'."

Foi então que Bruna decidiu nadar em direção a um ponto que avistava, ainda sem saber que se tratava da Ilha de Búzios —perto da qual seria resgatada horas depois. Sozinha no mar, passou a ter outros delírios.

"Vi minha mãe dançando com um pano verde. Um tubarão preto, outro cinza. Uma torre de telefone, amarela e enferrujada, em cima de uma base de cimento. Tinha gente lá", relembra.

"Eu falava com uma mulher e ela respondia que era seguro. Comecei a nadar em direção à torre, mas bati a mão na água e disse para mim mesma: ‘É mentira!’."

"Eu estava nadando para a morte", diz Bruna. Sem água potável nem alimento, chegou a pedir:

"Deus, faça com que eu tenha uma morte digna. Não aqui com fome e sede."

CAMARÕES DOS SALVADORES

Ao amanhecer, Bruna teve novas alucinações —como a imagem da filha, que fará cinco anos em julho, afundando atrás dela. Foi então que observou um barco de pescadores —e era real. "Senti ser minha última tentativa."

"Olhei para o céu, recorri a Deus, Maria, Buda, Oxalá, Zé Pelintra… Falei o nome de divindades, de entidades... Queria força para nadar um pouco mais. Consegui". Ao chegar mais perto, gritou. "Ouvi alguém lá dizer: ‘Tem uma pessoa! Uma mulher! Calma, a gente vai até você!’"

Resgatada por Alex dos Santos e o filho, Alan, Bruna pediu que procurassem por Dheorge imediatamente. Recebeu água, comida e roupas secas antes da chegada dos bombeiros marítimos para os quais repetiu a necessidade de encontro do colega.

Encaminhada ao Hospital Municipal Mário Covas, em Ilhabela, recebeu alta dois dias depois. Hoje, segue acompanhada por médicos, psicólogos e psiquiatras.

Ela lamenta a morte de Dheorge. "Estudo para salvar pessoas. Queria ter tido mais força para ajudá-lo", diz ela, que é formada em técnico de enfermagem.

Bruna suspendeu atividades para passar um tempo em casa. Dias atrás, ao lado de amigas, fez macarrão com camarões —pescados por Alex e Alan, que ela já reencontrou duas vezes desde o salvamento. "Alex até me manda seus vídeos de pesca."

Apesar de nadar desde criança, reencontrar o mar não está nos planos imediatos. "Minha namorada e meus pais viveram um luto que não aconteceu. O que quero é voltar a frequentar uma igreja para agradecer pela vida."

O responsável pela moto aquática foi indiciado sob suspeita de homicídio culposo (sem intenção de matar) majorado, falsidade ideológica e exercício ilegal de atividade. O nome dele não foi informado. Ninguém foi preso.

Bruna Damaris (Foto: Arquivo pessoal)

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