Para quem ainda não sabe, a ideia de lançar o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) candidato à Presidência da República foi do seu próprio pai, ex-presidente Jair Bolsonaro.
LEIA TAMBÉM
Muitos simpatizantes do bolsonarismo "menos raiz" defendiam que, na impossibilidade de o próprio Jair concorrer, pelos notórios problemas que enfrenta, o melhor candidato de oposição para disputar com Lula (PT) seria o governador paulista Tarcísio Freitas.
Flávio Bolsonaro desde que foi anunciado pré-candidato ao PL não tem conseguido unir o grupo - ao contrário, ele e o irmão Eduardo têm desagregado o bolsonarismo.
A defecção mais recente foi a de Michele Bolsonaro, madrasta de ambos, como analisa a jornalista Roseann Kennedy, no "Estadão":
"O Brasil estava prestes a entrar em campo ontem quando Michele Bolsonaro (PL-DF) escancarou nas redes sociais o atrito que vive com seu enteado, , o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Três horas depois, mesmo em plena Copa, os dois vídeos publicados pela ex-primeira-dama já tinham quase cinco milhões de visualizações.
Michelle disse que foi humilhada e falou em 'uma punhalada' de Flávio. Não deixou dúvidas de que a relação entre eles se dilacerou de vez. O pano de fundo mencionado foi a briga, que se arrasta desde dezembro, em razão das articulações para a composição do palanque no Ceará.
Mas, como a própria Michelle ressaltou no vídeo, ela sabe mais de política do que pensam. 'Eles me tratam como se fosse idiota. Como se fosse alguém que chegou ontem. Eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam', desabafou. Portanto, o movimento da madrasta de Flávio é calculado e sustentado por um cenário muito mais amplo.
Desde que o filho 'Zero Um' do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) se enrolou nas teias do escândalo do Master, por ter pedido dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, os entusiastas de uma candidatura presidencial de Michelle se sentiram revigorados. Eles viram Flávio derreter nas pesquisas e perceberam que não houve retomada, mesmo quando a operação atingiu Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo, e respingou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Atualmente, a pré-campanha de Flávio vive dias de tensão. Nos bastidores do Partido Liberal, há um clima de abatimento, medo dos desdobramentos da investigação e a leitura de que, se surgirem novas denúncias contra ele, sua jornada rumo ao Planalto pode ter de ser interrompida antes mesmo de começar formalmente.
É aí que Michelle entra em campo. Ela conta com a simpatia do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e todos sabem que ele não era exatamente um entusiasta da chapa encabeçada por Flávio. O 'Zero Um' anunciou ser o pré-candidato sem nenhuma combinação ou comunicação prévia com Michelle ou Valdemar. Foi uma rasteira explícita.
Michelle ficou longe do palanque do enteado — uma medida estratégica de distanciamento que também funciona como blindagem de imagem perante as investigações que cercam o senador. Ao fazer um relato extenso de toda a intriga nas redes sociais, ela prepara a blindagem para se esquivar das transgressões dos Bolsonaros. Afinal, embora carregue o nome, ela não é do mesmo sangue da família, algo que sempre foi motivo de desconfiança no clã.
Agora o foco é preservar seu capital político. Diante desse cenário, uma ala do PL atua internamente para inflar o nome da ex-primeira-dama como alternativa de candidatura à Presidência da República. Quando questionados, nas últimas semanas, sobre os planos de Michelle disputar uma vaga ao Senado, por exemplo, integrantes da sigla reagiam com uma indagação aos interlocutores: 'Será que vai ser o Senado mesmo?'
Os próprios articuladores da tese reconhecem, porém, que uma desistência de Flávio não está nos planos e que qualquer mudança dependeria do aval de Jair Bolsonaro — cenário considerado improvável devido à desconfiança que impera entre os filhos do ex-presidente e a madrasta, além do fato de o próprio ex-mandatário não desejar o nome de Michelle na disputa majoritária."
LEIA MAIS
+Lidas